domingo, 15 de fevereiro de 2009

Filme (DVD) Fatal

  1. Muito bom. Mas como diz o nome original (Elegy), triste. Por sinal, acabo de aprender uma palavra nova, "Elegia". Para quem é tão ignorante quanto eu, é um poema em tom triste ou toda reflexão poética sobre a morte ou que trate de acontecimentos infelizes do próprio autor. É o caso do filme, triste mas sensível, com a belíssima Penelope Cruz, que por sinal concorre a um Oscar neste ano na categoria Atriz Coadjuvante por Vicky Cristina Barcelona. A atuação de Ben Kingsley é muito boa. E vivemos, junto com ele, essa tão batida e tão atual discussão sobre o amor, seus longos tentáculos e variações e como esse sentimento nos torna tão humanos. Lembrei-me de outro filme no mesmo estilo, Outono em Nova York. Leia também o comentário do filme A Outra. Ah, a beleza feminina, quanto brilho, quanto poder! "Quanto mais bela uma mulher, mais invisível ela é", diz o poeta amigo do protaginista. Tenho que concordar. A beleza ofusca! (Fatal)

2 comentários:

  1. Gostei e vou ver.
    E mando um poema do Drummond, Elegia.
    []´s

    Elegia

    Carlos Drummond de Andrade

    Ganhei (perdi) meu dia.
    E baixa a coisa fria
    também chamada noite, e o frio ao frio
    em bruma se entrelaçam, num suspiro.

    E me pergunto e me respiro
    na fuga deste dia que era mil
    para mim que esperava,
    os grandes sóis violentos, me sentia
    tão rico deste dia
    e lá se foi secreto, ao serro frio.

    Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
    bem antes sua vaga pedraria ?
    Mas quando me perdi, se estou perdido
    antes de haver nascido
    e me nasci votado à perda
    de frutos que não tenho nem colhia ?

    Gastei meu dia. Nele me perdi.
    De tantas perdas uma clara via
    por certo se abriria
    de mim a mim, estrela fria.
    As arvores lá fora se meditam.
    O inverno é quente em mim, que o estou berçando
    e em mim vai derretendo
    este torrão de sal que está chorando.

    Ah, chega de lamento e versos ditos
    ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
    ao ouvido do muro,
    ao liso ouvido gotejante
    de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
    seu tapete de água, distraída.

    E vou me recolher
    ao cofre de fantasmas, que a notícia
    de perdidos lá não chegue nem açule
    os olhos policiais do amor-vigia.
    Não me procurem que me perdi eu mesmo
    como os homens se matam, e as enguias
    à loca se recolhem, na água fria.

    Dia,
    espelho de projeto não vivido,
    e contudo viver era tão flamas
    na promessa dos deuses; e é tão ríspido
    em meio aos oratórios já vazios
    em que a alma barroca tenta confortar-se
    mas só vislumbra o frio noutro frio.

    Meu Deus, essência estranha
    ao vaso que me sinto, ou forma vã,
    pois que, eu essência, não habito
    vossa arquitetura imerecida;
    meu Deus e meu conflito,
    nem vos dou conta de mim nem desafio
    as garras inefáveis: eis que assisto
    a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
    de me tornar planície em que já pisam
    servos e bois e militares em serviço
    da sombra, e uma criança
    que o tempo novo me anuncia e nega.

    Terra a que me inclino sob o frio
    de minha testa que se alonga,
    e sinto mais presente quando aspiro
    em ti o fumo antigo dos parentes,
    minha terra, me tens; e teu cativo
    passeias brandamente
    como ao que vai morrer se estende a vista
    de espaços luminosos, intocáveis:
    em mim o que resiste são teus poros.
    E sou meu próprio frio que me fecho
    Corto o frio da folha. Sou teu frio.

    E sou meu próprio frio que me fecho
    longe do amor desabitado e líquido,
    amor em que me amaram, me feriram
    sete vezes por dia em sete dias
    de sete vidas de ouro,
    amor, fonte de eterno frio,
    minha pena deserta, ao fim de março,
    amor, quem contaria ?
    E já não sei se é jogo, ou se poesia.

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  2. Longa vida a Elegia! Ao menos como esta daqui.

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